Mulheres ligadas ao futebol lutam contra o machismo no esporte

Musa, torcedora, árbitra, jornalista, jogadora...mulheres envolvidas com esporte contam suas experiência do dia a dia na modalidade

 

Há décadas as mulheres batalham por seu espaço na sociedade. No futebol não é diferente. É cada vez mais comum a presença feminina dentro e fora das quatro linhas: sejam elas torcedoras, jornalistas, jogadoras, musas ou árbitras. Mas será que elas sofrem algum tipo de preconceito? Em fevereiro, houve uma polêmica com a relação mulher x futebol. O Atlético-MG apresentou o nome uniforme com mulheres vestindo apenas uma camisa e uma calcinha de biquíni e o desfile repercutiu negativamente.
No Espírito Santo o assunto foi tratado de uma forma diferente por parte de uma musa. Em 2011, a torcedora Suzana Rosseto foi eleita pela torcida a musa do Rio Branco. Na época, teria que fazer um ensaio sensual de biquíni. Por conta de seus princípios, ela recusou e foi substituída por uma outra moça. "Não acho legal para o esporte e não tem nada a ver com musa de futebol, até mesmo as posições para as fotos. Não acho condizente".
A história de amor entre a empresária Suzana Rosseto, 23 anos, e o Rio Branco começou em 2008, quando foi convidada pelo irmão para ir à final da Copa Espírito Santo contra a Desportiva. O título não foi para as mãos do Capa-Preta, mas aquele dia foi especial: nascia uma torcedora, musa e conselheira.
Foto: Fernando Madeira

Mulheres apaixonadas pelo futebol falam sobre o preconceito no esporte

Logo Suzana foi conquistando seu espaço na arquibancada e chegou a ser vice-presidente do Batalhão Feminino do Comando Alvinegro - hoje ela é diretora de comunicação da torcida. E qual é o segredo para ser respeitada? "A gente tem que impôr respeito, limite, porque homem é homem em qualquer lugar".
O preconceito existe. Há quem diga que ela não entende de futebol, não sabe o que é impedimento ou que está no estádio para ver os homens. "Uma vez eu estava em pé na arquibancada com as meninas e um rapaz pediu para a gente sentar. Dizia que a gente não sabia de nada, xingou. Em um certo momento do jogo ele se referiu a um jogador como "baixinho", então quem não sabia de nada era ele", contou ela, que quase sempre está nos jogos do Rio Branco, seja na Grande Vitória ou no interior.
Foto: Fernando Madeira

Suzana Rosseto, de 23 anos, é conselheira do Rio Branco

Mesmo sendo mulher em um ambiente considerado masculino, Suzana nunca abriu mão de nada. Usa a roupa que tiver de usar e age da maneira que lhe condiz. Sempre presente no "mundo do Rio Branco", ela foi convidada este ano pelo presidente Maurício Duque para ser uma das conselheiras do clube - a única mulher. "Eu estou na área da comunicação e faço tudo que é possível para o crescimento do Rio Branco. O Duque me convidou porque nós, da torcida, sempre pedimos mais aproximação com o clube".
Musa da Tiva fala sobre elogios
Foto: Fernando Madeira

Gerente bancária Paula Dornelas, 29 anos, agora é a musa da Desportiva

Para atrair mais sócio-torcedores, a Desportiva fez uma "bela" jogada de marketing este ano: a gerente bancária Paula Dornelas, 29 anos, agora é a musa do clube e ajuda nas ações do Programa Sou Grená. A loira tem sido presença constante nos jogos do time no Engenheiro Araripe. "Por ter tido uma divulgação, as pessoas vêm com o intuito de conversar, me conhecer e saber como funciona o programa".
No entanto, ela garante que não há desrespeito dos jogadores, dirigentes ou torcedores. "Claro que ouço elogios, algumas gracinhas, mas coisas simples que as mulheres ouvem em qualquer lugar. Antes de virar musa eu imaginei que poderia ser maior o assédio, mas me surpreendi. Na cabeça dos homens eu represento o time, visto o manto sagrado deles, então o respeito é maior".
Paula acredita que sua presença no estádio também acaba atraindo mais mulheres. "As mulheres são mais desconfiadas, mas quando me veem lá se sentem mais confortáveis para ir ao estádio. Às vezes até um namorado, marido não leva por medo de ouvir gracinha, mas não é assim. Você vem ao estádio e vão te respeitar. Tudo depende da postura da mulher".
Dificuldades na carreira de atacante
Elas jogam futebol, não recebem salário, às vezes ajudam a custear as viagens do próprio bolso e ainda têm que driblar o preconceito. A atacante Suenia Estrela, 24 anos, defende o atual campeão estadual Vila Nova e foi a artilheira do campeonato, com 20 gols. Ainda assim ela garante que a vida de jogadora de futebol no Espírito Santo não é fácil.
Foto: Fernando Madeira

Mulheres apaixonadas pelo futebol falam sobre o preconceito no esporte

Atualmente o time conta com alguns patrocínios, mas os gastos são altos e as rifas são uma saída para "engordar o bolso". Neste fim de semana, por exemplo, as meninas viajaram para Afonso Cláudio para fazer um amistoso: mais uma viagem custeada aos trancos e barrancos do clube que se prepara para o Campeonato Estadual e a Copa do Brasil. Elas já chegaram a pedir dinheiro em um semáforo para disputar uma competição em Minas Gerais.
Ainda há a ideia de que jogadora de futebol é masculina. Mas é aí que Suenia age para tentar mudar esse preconceito: "A aparência ajuda a driblar isso. No nosso time tem muitas meninas bonitas, então a gente busca estar sempre apresentável. Nosso uniforme de passeio tem o short mais curto um pouco, aí usamos cabelo solto, colocamos um óculos, algumas usam maquiagem".
Ela tem que lidar com as piadinhas dos mais engraçadinhos e dos olhares dos mais desconfiados. "Eles falam: 'vai jogar lá em casa', principalmente quando chegamos para jogar nos lugares. Também falam que mulher não sabe jogar bola. Aprendemos a ignorar e nosso treinador é homem, então ele ensina a gente a desprezar essas coisas".
Katiúscia Berger é pioneira na arbitragem
Quando Katiúscia Berger ouviu de um famoso treinador, no clássico da final do Campeonato Mineiro, palavras que ela classifica como "coisas que eu não escutei nem na várzea", ela poderia ter encerrado ali sua carreira como bandeirinha. Insultos que procuravam desmoralizar a mulher Katiúscia por estar trabalhando em um jogo de futebol masculino.
Foto: Fernando Madeira

Katiúscia Berger, árbitra da federação de futebol do Espírito Santo

A capixaba, mesmo aconselhada por muita gente, não processou o então treinador. Preferiu abafar o episódio para não se afastar do seu sonho de trabalhar este esporte. "Se a polícia não tivesse entrado em campo, ele teria me agredido fisicamente. Com certeza. Mas eu optei por não levar o caso à frente para não atrapalhar minha carreira".
Desde de 1999 Katiúscia está na arbitragem do Estado. Ela é a única mulher no quadro da federação de futebol do Espírito Santo que atua no profissional. Hoje, depois de tanto tempo bandeirando aqui ela ainda se depara com gracinhas e xingamentos sexistas. Mas pelo menos, dentro de campo, ela consegue se impor.
"Quando eu comecei, era muito comum jogadores e técnicos virem falar algum tipo de gracinha ou mesmo xingamento.Eu ficava inibida. Mas agora a gente pode puní-los por isso. Então diminuiu muito".
Fora de campo, porém, Katiúscia ainda segue ouvindo muita coisa. "Para mim o pior é quando o jogo está vazio e fica um torcedor gritando, dirigindo palavras a mim. Quando está cheio a torcida acaba minimizando estas manifestações individuais".
E apesar de estar em um meio onde o preconceito vem dos homens, a bandeirinha disse que há mulheres que também tem uma visão machista.
"Os meus colegas de trabalho me respeitam muito. Eu sou casada com um assistente. Mas o que mais me aborrece e magoa é o ciúme das mulheres dos próprios árbitros. Muitas me julgam por eu estar fazendo 'um trabalho de homem'. De estar ali perto deles. E eu não quero magoar ninguém".
Marluci Martins, editora do jornal Extra
Eu já cobri quatro Copas do Mundo pelo jornal O Dia e uma pelo jornal Extra. Não era comum mulheres cobrindo futebol na minha época, então é claro que havia aquela estranheza por parte das pessoas. Era uma surpresa. Havia treinadores que não me deixavam chegar perto do vestiário, mas isso era mais para me preservar mesmo. Machismo ou preconceito eu nunca percebi. Pelo menos eu nunca vi comigo. Até porque se tivesse acontecido, eu não suportaria tanto tempo na profissão.
Myrian Fortuna, presidente do TUPI de Juiz de Fora-MG
Durante o ano de 2014, Myrian Fortuna, 56 anos, era a única mulher no Brasil a atuar como presidente de um clube de futebol dentre as equipes participantes de campeonatos da CBF. À frente do Tupi de Juiz de Fora-MG, ele conseguiu levar o time à Série B do Brasileirão e hoje ser respeitada pelo seu trabalho. Mas nem sempre foi assim. Dificuldades e desconfianças não faltaram quando ela assumiu sua cadeira.
Como foi a sua aceitação no início?
O Tupi é uma instituição centenária e minha família já esteve à frente do Clube. Mas eu sabia que muitos iriam ser contra. Juiz de Fora é uma cidade mineira que tem aquele conservadorismo todo. Cheguei a perder patrocinadores, no início pela desconfiança, mas, hoje, com meu trabalho desde 2013, consegui novos parceiros".
Como é sua relação com jogadores e diretoria?
Eu entrei no clube há 10 anos como nutricionista. Eu eu já conheço as pessoas e elas aprenderam a lidar comigo, já que eu estava sempre presente em viagens e no dia a dia. Hoje eu ainda atuo como nutricionista também, quando não estou na presidência.
Acho que o futebol precisa de mais mulheres no seu meio. A gente consegue dar um toque mais humanizado. E eu acredito que quando se faz com paixão, e eu sou uma apaixonada pelo futebol, as coisas dão certo, mesmos com todas as dificuldades.

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